Jogou onde parça?

O mundo dos boleiros é um universo à parte. Eu sempre digo isso em todas a conversas que tive sobre futebol até hoje. Para exemplificar que eu não estou maluco, imagine as duas seguintes situações:

  1. Você é funcionário da empresa X. Chega um certo dia e você se sente desestimulado a continuar trabalhando por lá. O que você faz? Corpo mole é claro! Eu ou você que está lendo esse texto, provavelmente seríamos demitidos em pouco tempo, porém um jogador de futebol, especialmente de um grande clube, ou vai ficar na vida boa apenas treinando, viajando, dormindo e comendo até ser negociado em uma próxima janela de transferências ou será colocado para treinar em separado do grupo. Fico imaginando isso acontecendo com um analista de RH, um advogado, um contador. Seu chefe chega e diz: – “Almeida, você está contaminando o grupo. Por favor passe a frequentar o escritório em horários alternativos. Por força de contrato,  seu salário e demais benefícios continuarão a ser pagos regularmente”.  E o “Almeida” aqui do exemplo, se sente injustiçado. Ele sai da “firma” e vai direto ao Twitter para cornetar a empresa e xingar o chefe. Depois de pouco tempo, como não é vantajoso rescindir o contrato dele, é reintegrado como se nada tivesse acontecido, afinal ele é um patrimônio da empresa (qualquer semelhança do Almeida e de um certo volante raçudo, de time de colônia italiana da capital Paulista, é mera coincidência).
  2. Você é gestor na empresa Y. Junto aos seus colaboradores executa um projeto curto com relativo sucesso. Esse projeto chama a atenção da empresa W e Z, ambas com sede na Europa. Eles te contatam e te convencem a trabalhar para eles. Prometem te pagar 10x o seu atual salário e ainda pagarão um “hiring bonus” excelente. Você obviamente não é bobo e vê a oportunidade da sua vida passar diante dos seus olhos. Não importa que você tem pouca experiência e que talvez nem tenha todos os méritos, afinal estava em uma equipe bem montada, motivada e que já era coesa antes da sua chegada. O que você faz? Chega no seu chefe e diz que não tem mais cabeça para continuar na atual posição. Seu chefe responde: -“Silva, você tem um contrato a cumprir! Não pode simplesmente deixar a empresa!” Você provavelmente usa o expediente do exemplo número 1, até convencer seu empregador a liberar você para a sonhada transferência internacional.

Achou os dois exemplos absurdos? Pois é, eles são realmente. Não consigo imaginar isso acontecendo no mundo comum. Entretanto não estamos falando do mundo dos reles mortais. Há expressões, valores e conceitos completamente distintos do usual no mundo da bola. Parte pelas peculiaridades da profissão e pelas altas cifras que circulam entre os jogadores. Existe, por exemplo, um nível de tolerância pelo que é dito entre os colegas de profissão, e Robson de Souza, o popular Robinho – menino carente do litoral paulista que “ganhou o mundo” graças ao esporte bretão, cruzou essa linha ontem com sua reincidência no famoso: ‘Jogou onde?’ Esse é o famoso ‘você sabe com quem está falando?’ do mundo da bola.

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Não quero ser aqui o dono da verdade, o paladino dos bons costumes, nem defender o politicamente correto. Qualquer um que já jogou, ou joga aquela pelada marota de final de semana, sabe que no campo de jogo, os nervos estão à flor da pele e muitas vezes ganhar pela instabilidade psicológica do oponente faz parte do jogo. Porém parece que Robinho samba na linha tênue entre a provocação, o desrespeito e o mau exemplo.

Robinho já foi flagrado outra vez com essa mesma provocação, ou seja é reincidente na arte de humilhar jogadores “desconhecidos”. Em 2016, contra o América-MG, o alvo foi Osman, que curiosamente hoje está na Chape. Na atitude do atacante está algo que parece inerente a parte da sociedade brasileira, que se confunde aí com o tal mundo boleiro. É a desvalorização do outro pela profissão, pelo cargo, pelo status profissional ou social. Chama a atenção que Robinho não fez isso na Europa. Talvez lá o menino franzino que disse que chegaria ao Real Madrid para ser o melhor do mundo, foi quem ouviu a famosa carteirada dos boleiros. Suponhamos que isso aconteceu, ele então deveria ter aprendido a lição e seguido a máxima de nossas avós: -“Você não faz ao outro, o que não gostaria que fizessem com você”.

Como eu disse anteriomente, o “jogou onde?” de Robinho é o famoso “você sabe com quem está falando?” de diversas blitz policiais, portas de boate, atendimentos em serviços públicos e etc, que acontecem diariamente na sociedade brasileira – uma nação marcada pela desigualdade, outro paralelo perfeito com o universo dos jogadores de futebol.

E Robinho sabia com quem estava falando?

Era com Moisés, jogador que com 26 anos já rodou vários clubes e teve uma pequena passagem pelo Corinthians e foi campeão da Série B pela Portuguesa. Por necessidade e vontade, topou o desafio de jogar pela Chapecoense no ano seguinte à tragédia que vitimou quase todo o elenco do clube catarinense. Sem vitimismo e como operário da bola, embarcou nessa porque foi o que apareceu: jogar em um time de orçamento baixo, em que escapar do rebaixamento, nos meses de reconstrução da equipe, era o único objetivo. Robinho, por sua vez, é uma das estrelas de um elenco caro e recheado de bons salários do Galo – que já pode ser cotado como uma das grandes frustrações de todos os tempos do cenário nacional. Jogando no mesmo campeonato, o Galo, time de Robinho só está três pontos na frente da Chape, time de Moisés, e ao que tudo indica até aqui, terminarão o brasileirão juntos no meio da tabela, na famosa água da salsicha.

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Apenas para recapitular: no jogo em questão, Moisés, que não jogou em lugar nenhum, venceu Robinho por 3 a 2. Se eu fosse ele, chamaria Robinho no final para participar daquelas famosas entrevistas pós jogo pontuando o ocorrido. Para sorte de Robinho, Moisés não foi sádico como eu seria, talvez com medo de ver sua carreira marcada por um embate contra um medalhão da bola.

E Robinho jogou onde?

Em times que todo garoto que sonha futebol gostaria de jogar: no próprio Atlético-MG, no Manchester City, no Milan, no gigante Real Madrid. Com exceção do Santos, onde foi criado, não deixou saudade em lugar nenhum. Na Espanha, onde chegou querendo ser melhor do mundo, falar que alguém é um “novo Robinho” é falar em fracasso, como já foi dito pelo renomado jornalista Marcelo Bechler, aquele que deu o furo no caso Neymar.

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Associar fracasso à carreira de Robinho parece injusto, afinal mesmo ele não sendo meu jogador preferido – e hoje não queria ele no elenco do meu time de coração, o garoto de infância humilde lá de São Vicente, jogou em clubes grandes, fez tabela com jogadores renomados, deu algumas voltas olímpicas, ganhou dinheiro, status, fama – apesar de não ser bem-quisto nem em Santos, onde iniciou a carreira de boleiro.

Talvez Robinho venceu o suficiente para se sentir no direito de menosprezar a carreira de um colega de profissão, ainda que para provocar durante uma partida. Parece a velha história do sujeito em que o fracasso sobe à cabeça. Infelizmente, essa foi mais uma bola fora na carreira do “novo Pelé” (ele era chamado assim nos idos de 2000 quando encantou o mundo com seu futebol jogando pelos meninos da Vila) pois alguém que se acha mais merecedor de certos privilégios ou supõe existir um respeito maior, simplesmente pelo que faz, por onde trabalha, por onde já passou não merece ser respeitado e ter a exposição que o atual jogador do Galo possuí. No caso de Robinho, e em muitos outros, é só adicionar fama e dinheiro para a equação do desrespeito ficar ainda maior. Espera-se hombridade de Robinho ao pelo menos reconhecer que errou e se desculpar publicamente com Moisés, deixando assim a sua imagem, que já não é das melhores, menos desgastada.

Abraços,

Fernando Michelutti.

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Fernando Michelutti

São Paulino desde 30 de maio de 1982 - O São Paulo Futebol Clube foi, e continua sendo, sua primeira paixão na vida. É fanático por futebol e se deixar assiste até a 6° divisão do campeonato inglês naquele sábado chuvoso com direito a mesa redonda e replay dos gols. Tem como hobby colecionar camisas de clubes nacionais e internacionais, além de visitar estádios e sedes de clubes sempre que esta viajando ao redor do globo. É casado com a Santa Raquel - que nunca foi enganada sobre seu primeiro amor. Também é pai da Duda, do Dani e do Pedro - uma nova geração de são paulinos que vem forte rumo ao Hepta. Agora, junto com grandes amigos, também é blogueiro aqui no papo de arquibancada!

Um comentário em “Jogou onde parça?

  • 19 de outubro de 2017 em 18:36
    Permalink

    Se fosse comigo, na Várzea ou no profissional, levava uma rasteira e um tapão na cara pra aprender ser homem.

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