Posicionamento e tática? Drible.

“Para Mané Garrincha, o espaço de um pequeno guardanapo era um enorme latifúndio”.

O saudoso Armando Nogueira, jornalista e cronista esportivo, numa de suas célebres frases, assim definiu o craque dos anos 1950/60 pela sua capacidade do drible e de enganar seus marcadores que ficavam conhecidos como “Joões”. Resultado de imagem para garrinchaTodos iguais, todos driblados, todos impotentes diante do gênio das pernas tortas que driblava sempre para o mesmo lado, e sempre conseguia passar pela marcação. Incrível.

No futebol do meio do século passado, com muito mais espaço para jogar, com muito menos marcação e preparação física que os dias atuais, o drible já era exaltado e reverenciado como ponto fundamental no desmonte de defesas bem postadas e foi a grande razão para a supervalorização dos jogadores brasileiros. Era o futebol de um jeito puro que só o Brasil era capaz de produzir. Era a marca do samba, do negro, da ginga que só nós possuíamos e que nos diferenciava e nos explicava pela miscigenação do povo.

Mais de sessenta anos depois, cada vez mais os dribles se tornam raros. Cada vez mais o futebol se tornou tático, de muita preparação física, de preenchimento de espaços, de jogadores que chegam a correr doze ou treze quilômetros por jogo, em um campo padronizado, em medidas que favorecem as equipes que fecham bem os espaços em frente sua área e saem em contra ataques desenfreados na esperança de achar os espaços para conseguir fazer o gol. Neste ano especialmente, o futebol brasileiro não é o do drible, o do passe ou do faro do artilheiro. É o ano do time que não quer ter a bola – aquele que recua, permite a posse de bola ao adversário – e que ao retomar, parte agressivamente, com velocidade em busca do gol. É o ano em que não faz muita diferença ser o time da casa, que naturalmente terá que propor o jogo. Menos tempo com a bola significa menos chances de dar espaço ao adversário. É o jogo do destruir antes de construir, do não perder antes de tentar ganhar. Estranho.

De tão pragmático e tático, os jogos se passam num eterno looping, como no famoso filme “Feitiço do Tempo” em que o repórter Bill Murray acorda sempre no mesmo dia, cobrindo a mesma festa na mesma cidade.

Felizmente, esse feitiço do tempo foi quebrado dias atrás. Em uma modorrenta semifinal de Copa de Brasil, em que o Maracanã lotado via o segundo jogo entre Botafogo e Flamengo, de duelo tático perfeito, com um 0 x 0 no primeiro jogo de quase nenhuma chance de gol, coube a um colombiano nos mostrar como se rompe uma defesa, um jogo tático e físico. Resultado de imagem para berrio victor luisBerrío, de muita velocidade, teve a irresponsabilidade de tentar e conseguir um drible genial na ponta direita para mudar o padrão que se apresentava. Aquele futebol de pebolim, em que todos preenchem rigorosamente seu espaço, deu lugar a uma jogada de Garrincha para decidir a parada. Belo drible, linda jogada e gol. Nada mais brasileiro.

Uma semana depois, a Europa fechava a janela de transferências mais maluca da história. A janela em que os valores se tornaram ainda mais exorbitantes e que os clubes mostraram nenhum pudor em gastar.

E se olharmos para as duas maiores transferências do período, vemos que no primeiro mundo do futebol, vemos a busca pelo drible como ponto de desequilíbrio de um futebol ainda mais desenvolvido taticamente. Neymar e Dembelé, as maiores contratações de todos os tempos, juntos movimentaram mais de um bilhão de reais. Neymar já conhecido de todos, estrela da seleção brasileira e do Barcelona é um driblador nato, além de goleador implacável. Resultado de imagem para dembele barcelonaJá o francês Dembelé, que não tem 40 gols na carreira, é famoso por seus dribles nas pontas do gramado e infernizava as duras defesas alemãs jogando pelo Borussia Dortmund. Philippe Coutinho, outro que o Barcelona queria também é do tipo rápido e habilidoso, que compensa seu corpo frágil com muito talento e precisão de dribles e chutes. O Liverpool, que sabe que não se encontra isso em qualquer esquina, não vendeu. Mbappé, francês com cara e jeito de brasileiro, também se juntou à Neymar no PSG e seus dribles custarão 180 milhões de euros ano que vem.

Voltando ao Brasil, se recordarmos as maiores transferências brasileiras para a Europa vemos numa rápida lista o nome de Lucas Moura, Denílson e Neymar, para citar alguns que tiveram os maiores valores de suas épocas. Resultado de imagem para denilson atacante sao pauloO que eles têm em comum? A habilidade do drible, do improviso, a brasilidade perdida nas gerações que mais se importam com o preenchimento do espaço e do ponta-lateral que marca até a linha de fundo.

Portanto, sabe-se que a parte tática pode ser ensinada. O preenchimento de espaços, a marcação e um jogo físico que não tem volta, também. Mas ainda sim, o drible que se aprende nas peladas nos campos de terra das periferias brasileiras, não tem preço. Esse sim, tão simples, tão mágico e tão valioso, é de graça e faz a graça deste esporte amado por tantos. Basta deixar os meninos jogarem.

Comentários do Facebook

Deixe uma resposta