A transferência que abalou o mundo

Foi-se o tempo em que torcíamos por um time e desfrutávamos por longos anos, as vezes décadas, daquele mesmo “onze” com uma ou outra alteração. Sabíamos de cor a escalação e seus pilares.Resultado de imagem para pelé santos “Era Pelé”, “era Ademir da Guia”, “era Zico”, “era Sócrates”, “era Chulapa” e tantas outras “Eras” que marcavam as torcidas e nos davam a certeza de que um pedaço da arquibancada estava lá dentro, suando a camisa que se misturava com a pele e que representava as nossas cores, fossem elas alvinegras, rubro-negras, tricolores. Era ótimo. Já era.

Hoje, raros são os casos de jogadores que passam a vida defendendo apenas uma camisa. Seja pela falta de paciência da torcida e pressão de um futebol cada vez mais profissional, seja pela pressão do empresário, da família, do vou-garantir-meu-pé-de-meia e de minha quinta geração, seja aqui ou na China. Num mundo globalizado, em que as somas são cada vez multiplicações, não é de se estranhar que um craque do brasileirão de hoje, esteja amanhã jogando nos Emirados Árabes, ou na China, ou onde quer que o dinheiro esteja. Se antigamente somente o craque saía do país, hoje meia temporada é suficiente para garantir aquele contrato inimaginável anos atrás. E lá vai a comitiva que orbita cada jogador se mudar junto com ele para qualquer canto do mundo. Os poucos que fogem a essa regra, invariavelmente são goleiros, mão de obra ainda menos valorizada que o “pé de obra” tupiniquim com Rogério Ceni, Marcos e Fábio como os principais exemplos recentes.

Neymar e o século XXI

Não haveria de ser diferente com Neymar, seguramente o principal craque brasileiro da década, no caminho para ser o principal deste início de século. Resultado de imagem para neymar santosO Santos bem que tentou, mas numa transferência nebulosa em que o clube formador foi o que menos lucrou, o menino de Mogi das Cruzes foi jogar no Barcelona, quatro anos depois de se profissionalizar e deixar uma Libertadores a mais na galeria santista.

Até aí, nada de anormal. Quatro anos de puro crescimento, jogando ao lado de craques consagrados do nível de Messi, Iniesta, Suarez e tantos outros. Lidera a seleção brasileira, ganha uma Liga dos Campeões e se prepara para suceder o argentino que encanta o mundo desde à base catalã, empilhando taças e bolas de ouro. Resultado de imagem para neymar barcelonaO trono seria naturalmente seu, num dos clubes mais tradicionais e poderosos do mundo. Questão de tempo.

Porém, esqueçamos o tempo. Neymar Júnior nasceu em 1992, ele é da famosa “geração Z”, tratada nas empresas como a geração de pessoas talentosas, que goza do excesso de informação deste mundo globalizado, com profundo desapego das fronteiras geográficas, que tem necessidade extrema de interação e exposição, que têm “opinião pra tudo” e que são ansiosos em relação a ascensão profissional e pessoal. O mundo do futebol é apenas um reflexo da sociedade.

Se antes, nossos avós, reles mortais, passavam a vida num mesmo emprego, nossos ídolos nos campos também defendiam as mesmas cores por uma vida. Hoje, nossos colegas de faculdade trocam de emprego a cada dois ou três anos em média. Não muito diferente da maioria dos craques atuais.

O menino paulista, que ganhava salário de pai de família desde os catorze anos tem pressa. E quer mais. O milionário que age como um menino mimado e sai do sério quando lhe caçam em campo ou quando enfrenta problemas com o fisco espanhol, é o mesmo que não aceita ser o príncipe da Espanha. Quer ser o rei em Paris.  Num mundo sem fronteiras, competitivo e globalizado, pouco importa se o rival do final de semana é o Valência ou o Olimpique de Marselha. Ele quer apenas se divertir, e jogar bola no seu reino.

Ele não é bobo, e cheio de informação, sabe que será cobrado. Sabe que o preço pago pelo seu futebol, de incríveis 222 milhões de euros serão do tamanho do peso nas costas de levar o seu reino a ganhar as maiores guerras na Europa. Sabe que suas provas de fogo serão às quartas-feiras europeias, e os domingos serão apenas treinamento.

É um risco, daqueles que os nosso avós não correriam. Mas não podemos imaginar que um menino desta geração não queira correr. Ele vai correr, vai driblar e vai estufar as redes seguidas vezes. E se o reino parisiense, com dinheiro catariano, com rei brasileiro, vencer a Europa, não haverá dúvidas de que o menino de Mogi chegou ao topo do mundo. O que nos resta é aguardar e testemunhar: ao vivo, em cores, via internet, em HD e na velocidade de um click no Instagram ou uma curtida no Facebook. Nada mais geração Z. Nada mais Neymar.

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