A trajetória do amado e odiado Cuca

Era dezembro de 2015 e o Galo buscava um novo treinador para substituir Levir, recém demitido. Como de praxe em momentos de crise, o sempre autêntico Luan foi chamado pela imprensa para uma entrevista coletiva e o nome de Cuca foi ventilado como o possível técnico atleticano.

A resposta de Luan?
“Cuca, né? Hã… Tenho nada o que falar não. Respeito. Mas deixa esse pepino para o presidente.”

Fato é que de todos os 22 clubes em que treinou, difícil é encontrar um onde os jogadores sintam saudade de Cuca. Mas seu talento como treinador é inegável. Se apesar da rodagem ainda faltem mais títulos expressivos, a relação com Cuca é de amor e ódio.

No início de carreira após peregrinar em clubes de menor expressão como Gama, Avaí e Criciúma, teve no Goiás em 2003 sua ascensão no mercado nacional. Venceu o 2º turno do Brasileirão com o modesto clube goiano tirando-o do Z4 para uma respeitável 9ª colocação entre 24 clubes. Tal desempenho chamou a atenção do São Paulo em 2004 tendo assim sua primeira oportunidade num grande clube do eixo. Coube à Cuca trazer de Goiânia para o Morumbi, Fabão, Danilo e Grafite. Junto com os jogadores veio também a fama que carrega até hoje de grande técnico para montagem de elencos.

Sua passagem no tricolor foi ousada. Há controvérsias sobre a origem e variações táticas do 3-5-2 no Tricolor, mas Cuca deu espaço para o futuro galático Cicinho atacar. Luís Fabiano e Grafite formaram uma dupla de ataque muito acima da média; ambos conquistaram títulos na Europa. A Libertadores era a obsessão do 1º semestre. Caiu na semifinal contra o campeão Once Caldas após tomar gol nos acréscimos do 2º tempo.

Seu trabalho fluía razoavelmente bem mas cometeu um erro capital. Bateu de frente com o semideus tricolor: “Tive uma discussão com o Rogério Ceni, que eu acho o maior ícone da história do São Paulo e o melhor goleiro com quem já trabalhei, em que eu estava errado.” Foi demitido mas deixou de herança a base para o São Paulo conquistar a América no ano seguinte.

Seu próximo grande trabalho foi o Botafogo de 2007. Ali implementou um futebol de intensa movimentação com diversas variações táticas durante a partida. Seu Botafogo ganhou o apelido de “Carrossel Alvinegro” e era o time das goleadas e golaços. Tinha Dodô o artilheiro dos gols bonitos além de Zé Roberto que foi Bola de Prata Placar e Jorge Henrique futuro campeão mundial pelo Corinthians. Se a moda era jogar no 3-5-2 que o Soberano São Paulo difundira no Brasil, o Botafogo de Cuca jogava em um 4-3-3 com variações para o 3-4-3 e o 4-5-1.

Seu trabalho ruiu com o doping e suspensão de Dodô e o afastamento de Zé Roberto constantemente bêbado nos treinos. Cuca já era um grande técnico, mas ainda transmitia um bocado da sua insegurança aos seus comandados, além de agir à base de impulsos. Pediu demissão do clube e retornou 11 dias depois.

Sua passagem ficou marcada pelo chororô na sala de entrevistas após a perda do título da Taça Guanabara. Assim cantava a irônica nação flamenguista: “E ninguém cala esse chororô! Chora o presidente, chora o time inteiro, chora o torcedor!”

Novos descontroles emocionais vieram com o Cruzeiro de 2011. Fez a melhor campanha da 1ª fase da Libertadores mas
em uma atitude lamentável Cuca deu uma cotovelada em Rentería do Once Caldas enquanto o colombiano cobrava um lateral próximo ao banco de reservas. A derrota por 2×0 em casa eliminou o time mineiro da Libertadores, mesmo podendo perder por 1×0.

“Não tive a intenção de machucá-lo, mas estou errado. Errei e hoje mesmo falei com ele. Ele também me procurou para conversar e já pedi desculpas. Reconheço meu erro e temos que saber perder também.”

Ainda no Cruzeiro esmurrou a mesa em entrevista após penalty duvidoso marcado sobre Ronaldo Fenômeno do Corinthians. “É duro falar em cima disso, porque você não está jogando uma partida comum, era uma decisão. Vou pedir à Globo para rasgar meu voto de melhor árbitro para o Ricci. Tem que tirar. Foi a maior decepção da minha carreira no futebol.”

Marcado pelo destempero psicológico, Cuca assumiu o Galo em 2011 repleto de desconfiança e precisava desesperadamente salvar o Atlético de um novo rebaixamento. Logo de cara foram 6 derrotas seguidas. Pediu demissão mas foi barrado por Kalil. Nem mesmo a derrota de 6×1 tendo a chance de rebaixar o maior rival foi suficiente para uma demissão.

Em 2012 teve tempo para planejar e fazer aquilo que tem de melhor: montar elencos.
Imediatamente pediu o retorno de Marcos Rocha que jogava emprestado no América.
Foi de Cuca a indicação do desconhecido Leandro Donizete que jogava no Coritiba e tornou-se General no Galo. Buscou Pierre que estava encostado no Palmeiras de Felipão. Fez uma aposta no muito questionado Jô que causava confusões no Internacional. Convenceu Kalil a vender Werley e investir num grande goleiro. Assim Victor chegou. Identificou no Galo a necessidade de um elenco mais robusto. Pediu Junior Cesar, Rafael Marques e Escudero para comporem o plantel.

Sua cereja do bolo foi a indicação de Ronaldinho Gaúcho: “Presidente, nosso camisa 10 saiu do Flamengo”. Foi essa a ligação que Alexandre Kalil recebeu para negociar uma contratação. Do outro lado da linha, estava o técnico Cuca que já havia se adiantado ao dirigente e telefonado para Assis, irmão e agente de Ronaldinho, que acabara de rescindir com o Flamengo.

O título não aconteceu em 2012. Apesar de um 1º turno espetacular veio o “setembro negro” como o próprio Cuca definiu. O vice campeonato garantiu o retorno à Libertadores após 13 anos e com a chegada de Tardelli e a consolidação de Bernard ao time principal estava montado o “Galo Doido.” O time ganhou mais cancha e equilíbrio emocional com as chegadas dos campeoníssimos Gilberto Silva e Josué.

Diferente do carrossel implantado no Botafogo, o Galo Doido jogava na “bagunça organizada” num 4-2-3-1. Se Ronaldinho não marcava, Pierre era sua sombra e marcava pelos 2. Jô foi o artilheiro da Libertadores, Ronaldinho o craque das Américas no ano; Rever, Jô e Bernard estiveram na seleção campeã da Copa das Confederações. O alegria nas pernas foi vendido por 75 milhões de reais, maior transferência da história do futebol mineiro.

Campeão Mineiro, Melhor campanha da 1ª fase da Libertadores, goleada de 4×1 no São Paulo, penalty miraculoso salvo por Victor e viradas épicas de 0x2 contra Newells e Olimpia. Ainda no gramado comemorou o título e desabafou. “O Atlético é sofrido, é azarado, e eu também. E nós quebramos tudo isso, não tem mais azar p… nenhuma! Se hoje perde no pênalti, volta tudo o azarado. Mas não é porque ganhei agora que tenho sorte”

Encerrou sua passagem no Galo numa vergonhosa derrota por 3×1 no Mundial de Clubes para o desconhecido Raja do Marrocos. Apesar dos títulos, a relação com os jogadores chegara ao limite. “Burro pra car…” foi o desabafo de Marcos Rocha a respeito de Cuca.

Sobre sua passagem na China pouco pôde-se avaliar. Ficou milionário, ganhou uma Copa da China e mais desafetos. Diego Tardelli que acompanhou Cuca ao Shandong na China foi outro a confirmar a relação difícil do treinador com o elenco: “A gente tem se falado pouco. Tivemos uns problemas dentro de campo com ele. Só conversamos pelo lado profissional, depois eu vou para a casa. A gente não tem muito diálogo”.

Ainda faltava um título nacional e ele veio com o Palmeiras de 2016. Superstição com a calça vinho, conflitos com o capitão Dudu e título. Nem “Carrossel Alvinegro” nem “Galo Doido”. O esquema do Palmeiras era o “Cucabol” que explorava incessantemente os cruzamentos na área adversária, inclusive em cobranças de lateral. Um festival de bolas alçadas e muitas jogadas ensaiadas nas bolas paradas. Se o futebol não era o mais bonito já apresentado por seus times, pouco importa. O título veio e junto com as constantes disputas com Paulo Nobre e Alexandre Mattos optou por um período sabático.

2017 chegou e os problemas de Cuca no retorno ao Palmeiras se mantiveram. Afastamento de Felipe Melo, fritura de Borja, exposição dos jogadores que não quiseram bater penalty e a tão famosa conclusão: “Não consegui definir ainda o Palmeiras, não consegui definir a lateral, dar sequência para eles, dizer para eles: “vocês são meus titulares, vão”. Não consegui definir o centroavante. Não é porque eu não quero. Mas é culpa minha.”

Esse é o Cuca. Realista, sincero, supersticioso, cheio de manias, devoto fervoroso de Nossa Senhora e versátil.
Não sei você, mas eu adoraria o Cuca treinando meu time de coração.

Comentários do Facebook

Deixe uma resposta