O divertido Brasileirão

Chegamos ao final de Julho e, enquanto os europeus curtem o verão, vendo seus times gastarem milhões em reforços e começarem a pré-temporada em terras americanas e asiáticas a fim de encherem ainda mais seus cofres, cá estamos. Em pleno (não tão rigoroso) inverno, já em meio de temporada, disputando o campeonato nacional, com umas torcidas apreensivas com o rebaixamento, outras focadas nas Copas (do Brasil, Sulamericana e/ou Libertadores) e algumas apenas administrando a disputa e tentando se posicionar em algum lugar ali na tabela que permita sonhar com algo mais.

Apesar das férias das principais ligas do mundo, já temos algumas certezas antes mesmo da bola rolar: Na Espanha, o troféu não escapa de Barcelona ou Real Madrid, com o Atlético correndo por fora; Na terra dos Bávaros, o título não deve fugir do Bayern, atual pentacampeão; Na terra da bota, a Juventus é de longe a maior favorita; Na Inglaterra, a não ser que um cometa azul como o Leicester, daqueles que aparecem uma vez a cada 50 anos, dê o ar da graça, o título não foge dos londrinos Chelsea e Arsenal ou dos rivais de Manchester, com Liverpool e Tottenham brigando pelas copas e beliscando algo no pelotão de cima. É tudo muito bom, muito organizado, muito rico, mas muito previsível.

Falando em Leicester, temos a nossa versão alvi-negra liderando a corrida com folga aqui. Calma, tente segurar o xingamento ao blogueiro por enquanto. Não comparo o Corinthians ao Leicester em termos de clube, torcida, história ou camisa. Apenas vejo semelhanças na forma organizada, sem tanto brilho técnico individual, com total disciplina tática e futebol cirúrgico que levou os azuis a surpreenderem na Inglaterra, com a forma que o atual líder e provável campeão brasileiro joga. Ambos com orçamento muito menor que seus pares, mas que quando a bola rola, não deixa dúvidas de quem tem mais sede a este pote em forma de troféu.

Se aqui, o Corinthians pode ser considerado uma surpresa como líder folgado, pois não era a maior aposta dos analistas e torcedores, uma coisa é certa: a surpresa como regra. Ano após ano, comentaristas tentam apontar os times que disputarão o título, e via de regra, a prática não confirma a teoria. Quantas vezes nos últimos anos não achávamos que “esse finalmente é o ano do Inter”? Ou, “agora o Galo tira o atraso que vem desde 1971 e acaba com a piada de não ser bicampeão”; “o Palmeiras? Com essa grana toda e o Cuca de volta, só pode levar de novo”.

Essa é a graça do nosso campeonato. O Inter que foi favorito nos últimos anos, hoje luta com dificuldades na série B, o Galo decepciona e obrigatoriamente focará nas Copas e o mesmo se aplica ao Palmeiras. Por que isso acontece? Porque aqui, diferente de qualquer outro país, temos pelo menos 12 camisas fortes e, que pese a desorganização, as inúmeras trocas de técnicos, os elencos se modificando no meio do campeonato com entradas e saídas de jogadores e o calendário massacrante de jogos, a camisa pesa.

Ontem o menino Paulinho do Vasco foi o primeiro jogador nascido em 2000 a marcar na Série A. O Vasco não tem o time de outrora, mas a camisa do pesada dá a confiança pra encarar de igual para igual, um Atlético Mineiro, sempre duro no Horto. Aqui, no desespero, o zagueiro vira centroavante até num elenco milionário, o grande cai e o time joga em Salvador na quinta e em Porto Alegre no domingo. O menino completa o banco porque o titular foi vendido. Mas aqui o clássico está em toda rodada, e quando a zebra ganha do favorito não é manchete. É apenas a lembrança que tudo pode acontecer quando a bola rola por aqui. E se não há muitos times com excelência no papel, há doze torcidas fortes que empurram as surpresas rodada a rodada. Nada mais divertido que a surpresa.

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